REFLEXÕES DE MAIO

Atualizado: Jun 3


Maio provém do antigo termo Maya, do sânscrito माया, māyā, é um termo filosófico que tem vários significados: em geral, ele se refere ao conceito da ilusão que constituiria a natureza do universo. Maya deriva da contração de ma, que significa "medir, marcar, formar, construir", denotando o poder de "Deus" ou do "Demônio" de criar ilusão, e ya, que significa "aquilo". O livro O Tao da Física, de Fritjof Capra, traz uma reflexão espetacular a cerca do termo. Confira!


[...] O Hinduísmo não pode ser considerado uma filosofia, e nem mesmo uma religião bem definida. Em vez disso, trata-se de um amplo e complexo organismo sócio religioso, composto de um grande número de seitas, cultos e sistemas filosóficos envolvendo inúmeros rituais, cerimônias e disciplinas espirituais, bem como a adoração de incontáveis deuses e deusas. As múltiplas facetas desta tradição espiritual complexa, mas persistente e poderosa refletem as complexidades geográficas, racionais, linguísticas e culturais do vasto subcontinente indiano. As manifestações do Hinduísmo vão desde filosofias altamente intelectuais, envolvendo concepções de alcance e profundidade fabulosas, às práticas rituais ingênuas e pueris das massas. Se os hindus são, em sua maioria, simples aldeãos que mantêm viva a religião popular em sua devoção cotidiana, o Hinduísmo produziu, por outro lado, grande número de destacados professores espirituais, capazes de transmitir seus profundos insights.

A fonte espiritual do Hinduísmo encontra-se nos Vedas, uma coleção de antigos textos escritos por sábios anônimos, os chamados “videntes” védicos. Existem quatro Vedas, o mais antigo dos quais é o Rig Veda. Escritos em sânscrito arcaico, a linguagem sagrada da índia, os Vedas continuam a ser a mais alta autoridade religiosa para a maioria dos setores do Hinduísmo.


[...]


O tema básico que se repete na mitologia hindu é a criação do mundo pelo auto-sacrifício de Deus — “sacrifício” no sentido original de “fazer o sagrado” —, pelo qual Deus se torna o mundo e, no final, o mundo novamente torna-se Deus. Essa atividade criativa do Divino é chamada lila, a peça de Deus, e o mundo é visto como o palco para essa peça divina. Como ocorre com a maior parte da mitologia hindu, o mito de lila possui um intenso sabor mágico.

Brahman é o grande mago que se transforma no mundo e desempenha sua façanha com seu “poder criativo mágico”, que é o significado original de Maya no Rig Veda. A

palavra Maya - um dos termos mais importantes na filosofia da índia — teve seu significado alterado ao longo dos séculos. De “poder” do agente e mágico divino, veio a significar o estado psicológico de um ser humano sob o encantamento da peça mágica. Na medida em que confundimos a miríade de formas da divina lila com a realidade, sem perceber a unidade de Brahman subjacente a todas elas, continuaremos sob o encantamento de maya.

Maya, então, não significa que o mundo é uma ilusão, como erradamente se afirma com freqüência. A ilusão reside meramente em nosso ponto de vista, se pensarmos que as formas e estruturas, coisas e fatos existentes em torno de nós são realidades da natureza, em vez de percebermos que são apenas conceitos oriundos de nossas mentes voltadas para a medição e a categorização. Maya é a ilusão de tomar tais conceitos pela realidade, de confundir o mapa com o território.

Na concepção hinduística da natureza, todas as formas são relativas, fluidas, maya em eterna mutação, conjuradas pelo grande mago da peça divina. O mundo de maya transforma-se continuamente, uma vez que a divina lila é uma peça rítmica e dinâmica.


A força dinâmica da peça é karma, um outro conceito fundamental do pensamento indiano. Karma significa “ação”. É o princípio ativo da peça, a totalidade do universo em ação, onde tudo se acha dinamicamente vinculado a tudo o mais. Nas palavras do Bhagavad Gita:


"Karma é a força da criação, de onde provém a vida de todas as coisas”.7


O significado de karma, como o de maya, tem sido reduzido de seu nível cósmico original ao nível humano, onde adquiriu um sentido psicológico. Na medida em que nossa concepção do mundo permanece fragmentada, na medida em que continuamos sob o encantamento de maya e pensamos estar separados do meio que nos cerca, podendo agir independentemente, achamo-nos atados pelo karma. Libertar-se desse laço significa compreender a unidade e harmonia de toda a natureza, inclusive nós mesmos, e agir de acordo com esse entendimento. O Bhagavad Gita é bastante claro a esse respeito:


"Todas as ações são realizadas no tempo pelo entrelaçamento das forças da natureza, mas o homem perdido na ilusão egoísta acredita que ele próprio é o ator. Mas o homem que conhece a relação entre as forças da Natureza e as ações vê a forma pela qual algumas forças da Natureza agem sobre outras, e não se torna seu escravo."


Libertar-se do encantamento de maya, romper os laços do karma significa compreender que todos os fenômenos que percebemos com nossos sentidos constituem parte da mesma realidade. Significa experimentar concreta e pessoalmente, o fato de que tudo, inclusive nosso próprio ser, é Brahman. Essa experiência é denominada moksha ou “libertação”, na filosofia hinduísta e constitui a essência mesma do Hinduísmo.

1. “O Tao da Física" - Fritjof Capra, 1975 – p. 88-93

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