GANESHA E OS DEFEITOS DA VISÃO

Nos meses ocidentais de agosto-setembro, comemora-se o dia de Ganesha ou Ganapati. Gana significa grupo, seja grupo de pessoas, de animais, de profissionais, grupos de seres vivos. Isha e pati significam senhor, chefe. Assim, gana + isha = ganesa e gana + pati = ganapati – o senhor de todos os seres vivos. Ganesha é aquele que protege a todos. Vi uma vez uma imagem de Ganesha com várias armas que era reverenciada por ladrões, assaltantes. Antes de irem para suas funções, rezavam para que tudo desse certo, o roubo acontecesse e ninguém se ferisse! Ganesha protege a todos os seus devotos! E no mundo todo existem devotos dele, templos para ele ou templos em que ele está presente em lugar de destaque, pois é o eliminador dos obstáculos. Então, antes de qualquer ação, o devoto pede que os obstáculos sejam eliminados e o objetivo da ação seja alcançado.

Na Índia, vemos, em especial no Sul, uma forma de Ganesha com 3 olhos, sendo o terceiro entre as sobrancelhas. Ele é chamado de “drshti ganesa” ou “drshti ganapati” e é colocado na entrada de uma casa ou loja, ou no painel de um taxi. Tem como objetivo espantar o que é denominado no Brasil de “mau olhado”, drshti-dosha. E o que é exatamente um drshti? Drshti quer dizer visão, dosha é um defeito. O defeito de uma visão, o olhar que pode causar algum dano ao outro. É um olhar de inveja.

Em nossas relações com o universo causamos um impacto e o mundo externo nos causa igualmente um impacto. Este pode ser de apreciação ou repulsa. Quando apreciamos o objeto, ou pessoa, gostando do que é visto, podemos desejar possuí-lo. Este é o olhar de inveja. Apreciar algo e desejá-lo é natural e pode ser uma inspiração para nós. Mas quando vemos o que não temos, podemos nos sentir carentes, inseguros, desvalorizados e desejosos de ter também. É um sentimento natural, mas pode ser exagerado e ficar fora do controle. Inveja é um sentimento que pode ser confundido com ciúmes, porém os dois são diferentes. O ciúme envolve um terceiro fator, uma pessoa que é vista como rival em atenção ou afeto. A pessoa pensa que recebe menos amor ou atenção pois existe outra pessoa, a terceira pessoa, seja em uma relação amorosa, de amigos ou entre irmãos e os pais. O ciúme é triangular e deseja-se ter o outro mais do que a terceira pessoa o possui. A inveja é muito básica, imediata e natural e inclui duas pessoas; é dirigida ao que é visto em outra pessoa – seja uma posse ou qualidade – e é desejado. A inveja, ou o desejo pelo que o outro tem, e eu gostaria de ter, pode produzir uma atitude de hostilidade ao outro; o desejo de que a qualidade saia do outro e venha para mim, e é assim que pode ter uma força de hostilidade ao outro. Em linguagem popular se diz que o desejo pelo que o outro possui, ou seja, a inveja, “seca” a outra pessoa. Esse é o problema, a inveja não carrega só um desejo de ter algo, mas, ao ver esse algo desejável no outro, imagina-se que, para que eu possa ter, o outro terá de deixar de ter, como se saísse do outro e viesse para mim. Com esse pensamento, há internamente uma comparação, uma disputa e uma hostilidade. É tudo isso que a inveja carrega. Não é uma simples inspiração e um desejo, mas o querer exatamente o que o outro tem! A força do desejo da pessoa com inveja pode ser perigosa pois é como se quisesse tirar do outro aquele brilho que é desejado e transferi-lo para si mesmo. A inveja incapacita a pessoa de apreciar a qualidade ou posse do outro; e pode haver o desejo de destruir a pessoa ou a sua qualidade para que então, possuindo aquilo, a inveja que causa mal estar possa desaparecer. O objeto da apreciação e desejo pode se tornar objeto de raiva! Mas tudo carrega uma mensagem, até a inveja; ela pode nos ajudar a entender mais sobre nós mesmos. O que a inveja pode dizer? A inveja fala sobre como a pessoa se sente. Ao ver algo belo, se não é possível apreciar a beleza e ser inspirado por ela, evidencia-se uma insatisfação e carência com relação a si mesmo. A pessoa não consegue somente ver a beleza, mas precisa possui-la pois se sente pequena por não a ter. E ver o vazio em si mesmo irrita, dá raiva, revolta. Mas a comparação com outra pessoa é geralmente injusta pois foca em um aspecto, uma “janela” no outro. E cada um é um todo e não partes isoladas. Cada um terá capacidades e posses especiais que farão a pessoa brilhar e encantar. E, ao mesmo tempo, inevitavelmente, tem outras características que não são apreciadas. Quando se pensa: gostaria de ser como aquela pessoa, ou de ter o que ela tem, se está a olhar para algo em especial, isolado do conjunto. E não se percebe tudo o que custou ou custa para ser assim. O desejo é dirigido ao brilho especial, mas não ao custo que aquilo tem ou teve na vida do outro. E, se esse custo fosse visto, talvez não se estivesse preparado para ele. É verdade que, algumas vezes, o outro já nasce com aquele brilho, mas isso não faz com que um seja superior ao outro, pois ter algo não significa ter tudo. Por isso é injusta qualquer comparação e o desejo de ter ou ser como a outra pessoa. O olhar de inveja, na Índia, é chamado de drshti que numa tradução literal é visão ou olhar. Olhar o outro querendo ser como ele, ter o que ele tem. Tem origem na própria sensação de ser insuficiente e no consequente desejo de ser apreciado e amado como pessoa. Mas o outro poderia ser uma inspiração e não um instrumento para a sensação de menos valia. A inspiração não tem olhar de desejo, mas de apreciação e talvez confiança de que, se a pessoa quiser, poderá também ser aquilo. Cada um é um conjunto de coisas que são apreciadas por si e pelos outros e outras de que não gostamos. E assim será inevitavelmente. O universo é múltiplo em suas formas e possibilidades, a pluralidade em cada um é sua beleza. As expressões variadas pertencem a Ishvara, o todo. Há escolha com relação à ação, karma, que poderá ser, ou não, de acordo com o dharma, uma ação guiada pelos valores universais de falar a verdade, a não violência e respeito ao outro. O fazer pode ser analisado como correto, justo, ou não, dentro de circunstâncias nas quais a ação foi feita. Em relação às características e posses com as quais se nasce, cada um é um conjunto que compõe uma obra de arte única, a obra de arte de Ishvara. Em nosso relacionamento com o universo, podemos apreciar suas belezas, sermos inspirados por elas sem desejar possui-las. Pode haver, ao contrário, o desejo pelo que vemos na forma de inveja. É de se notar que nem sempre desejo é inveja. O desejo pode levar a uma ação pois a pessoa é inspirada pelo que vê no outro. Mas quando, para se ter algo, o outro não é permitido de ter, temos a inveja. Para estar livre de ter inveja, a pessoa precisa ser amiga de si mesma e não olhar para si de forma depreciativa, ser objetiva quanto à pessoa inteira que é. Se faz necessário apreciar as suas próprias qualidades, acolher e aceitar suas limitações e apreciar a beleza do conjunto. Sri Krshna explica, no capítulo 6 da Bhagavadgita, que esse é o tipo de mente do yogi, que consegue meditar e estar em paz consigo mesmo e no mundo. O yogi percebe que sentir medo, desejo, raiva, apego é natural e útil, pois traz a mensagem de como o mundo o está afetando. Cada uma dessas emoções precisa ser olhada dentro de seu contexto sem um julgamento isolado da emoção. E olhando a emoção com objetividade, com um pequeno distanciamento, pode-se entender o que pode ser feito e, a seguir, fazer. É injusto se comparar a uma pessoa num quesito único; cada um é um todo inseparável. Mas existe um possível olhar de julgamento para si mesmo e simultaneamente de desejo por uma característica ou posse do que outra pessoa possa ter. O olhar de desejar o que o outro tem, drshti dosha, é natural, pode acontecer sem que a pessoa se dê conta. Então, drshti ganesa se impõe para neutralizar esse olhar que vem do outro. E como o olhar aparece sem ser convidado, sem marcar hora, drshti ganesa está sempre a postos para impedir que drshti possa chegar até a pessoa que está despreparada para esse tipo de olhar do outro.


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